A música como meio de inclusão social
Identificado com a cultura afro-brasileira, aluno do ProJovem de Campo Grande utiliza a música e a dança como ferramentas de ação social e comunitária.

A vida de Anderson Delfim Sobrinho, 24 anos, não tem sido fácil. Acorda muito cedo, trabalha o dia todo em uma fábrica, carregando pedra e cimento e, à noite, vai de bicicleta para as aulas do ProJovem. Nos finais de semana, seu compromisso é na sede da Associação da Comunidade Negra de São João Batista. Como voluntário, ele dá aulas de dança e de percussão.
Anderson começou a trabalhar aos 12 anos e acabou abandonando os estudos na sexta série do ensino fundamental. Depois que entrou no ProJovem, sua vida ganhou um novo impulso, e ele já tem planos para o futuro: “Quero ser eletricista e pretendo trabalhar na profissão já a partir do ano que vem”, conta, justificando sua opção pelo arco de Construção e Reparos II.
Além de dar aulas na Associação, Anderson participa da Banda Afro-brasileira Mucamo Kandongo, que faz sucesso em Campo Grande e em outras partes do país onde se apresenta. Composta por 20 pessoas, a bandaé ligada à Associação, participando ativamente de suas atividades.“Antes, eu tocava pagode com um primo, mas mudei completamente há uns três anos, depois que participei, aqui na cidade, de uma oficina organizada pelo Projeto Ilê AiyêEste projeto visa difundir a cultura negra e lutar contra a discriminação racial, com trabalhos culturais e educacionais., da Bahia”, relata o estudante.
Foi nesta oficina que Anderson percebeu a importância de preservar e difundir a cultura negra. “A partir de então, me engajei no trabalho social e, hoje, são as crianças da minha comunidade que estão aprendendo comigo”, conta.

Talento na ponta do lápis
Ivan Cristaldo de Oliveira, 22 anos, também aluno do Programa em Campo Grande, é um jovem que reúne muitos talentos artísticos. Desde criança, já mostrava inspira-ção pela música e pelo desenho. Sua obra produz autênticos retratos em branco e preto e seus traços elegantes captam, com perfeição, as características e a expressão dos personagens, especialmente o brilho dos olhos, impressionando pela precisão e pela qualidade.
Na música, Ivan desenvolve diversas atividades.Toca violão, guitarra, contrabaixo, bateria e também canta. Com o nome artístico de Gabriel, ele faz a segunda voz na dupla sertaneja formada com um primo. Os dois se apresentam nos bares da capital e fazem moda de viola, pesquisam música caipira de raiz e compõem. Planejam gravar logo um CD com obras de compositores locais.
Em algum momento, Ivan imagina que terá de fazer a opção definitiva, mas, por enquanto, a arte convive bem com os estudos. “Considero a música uma terapia ideal nos momentos de tristeza e de tensão”, ressalta. Já o desenho é seu ganha-pão. Como deixou de trabalhar para estudar (era auxiliar de padaria), aceita encomendas para transformar fotos 3 X 4 em quadros do tamanho que o cliente desejar.
Ivan desenha paisagens, cavalos e outros animais, faz
grafismos geométricos, mas sua preferência é por motivos
religiosos, como Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida,
Nossa Senhora de Fátima, Jesus crucificado e outros. Ele
considera o “Rosto de Santa Luzia” seu mais importante
trabalho, feito por solicitação de um padre católico. O quadro
quase o tornou famoso e gerou encomendas de outros
desenhos. A obra ficou vários meses exposta na Universidade
Católica Dom Bosco.
Artista com dom natural, nunca fez curso de desenho ou
pintura. AutodidataÉ quem aprende sem
professores nem aulas,com seu próprio esforço,pesquisando omaterial necessário para
a aprendizagem. e curioso, Ivan criou uma espécie de desenho
animado formatado em um bloco de 100 páginas com
desenhos seqüenciais. Ao passar as folhas, rapidamente, o
modelo cria a sensação de movimento dos personagens.
Mas é nos estudos que ele deposita esperança e seus melhores
sonhos. “Só agora, com o ProJovem, estou aprendendo
a ler e a escrever de verdade. Depois, vou fazer o ensino
médio numa escola regular e estudar muito para prestar um
bom vestibular e cursar uma faculdade”, conta o aluno.
Alunos mostram suas vidas no palco
Idalina da Silva é uma carioca que nasceu e cresceu no morro, em um ambiente marcado pela pobreza e pela violência. Neste cenário, assiste seus amigos abandonarem a escola e também vê muitos caminharem para a criminalidade. Um deles é seu próprio marido, que se envolve com drogas e acaba assassinado por traficantes quando ela estava grávida de três meses.
Apesar das dificuldades que enfrenta para criar a filha sozinha e, mesmo não gostando da maneira como é tratada pelos professores na escola regular, ela continua os estudos.
Idalina é um personagem fictício, criado pelo professor de qualificação profissional do curso de Arte e Cultura, Fábio França, e que se transformou na peça de teatro “Maria da Silva Brasil”. Interpretada pelos alunos do Núcleo Catumbi, do ProJovem do Rio de Janeiro, a peça mostra a luta de uma mulher corajosa e determinada para garantir uma vida digna à filha, Maria da Silva.
O professor explica que escreveu e montou a peça com a ajuda dos alunos, baseada na história de vida narrada por eles mesmos. “Esta é a realidade dos jovens que moram nas periferias de grandes cidades”, observa Fábio. A professora da peça, segundo ele, representa o sistema de ensino excludenteSistema educacional que não proporciona a integração e a garantia de oportunidades iguais para todos os alunos. Tem como principal efeito a evasão escolar..
Na peça, Maria da Silva Brasil é interpretada pela aluna Juliana dos Santos, 19 anos, que, embora não pretenda ser atriz, confessa estar adorando participar do elenco.“Tenho um problema de dicçãoManeira de articular palavras, de pronunciar claramente uma frase, para que ela seja bem entendida., mas quando estou interpretando, consigo falar normalmente”, relata a aluna. A coordenadora Pedagógica, Ana Maria Souza Lima, classifica o teatro “como uma porta que se abre aos alunos para o mundo cultural”. A coordenadora ressalta que eles estão adorando as visitas culturais promovidas pelo núcleo. “Os alunos já conheceram o Circo Voador, a Casa de Cultura Laura Alvim e outras entidades ligadas ao setor cultural”, conta. Segundo ela, os planos, agora, estão concentrados na apresentação da peça em uma grande casa cultural, como, por exemplo, o Teatro Carlos Gomes.

Jacqueline: “Estou adorando
fazer
esta peça;
vou tentar
uma bolsa
para estudar
teatro.”
Vocação para atriz
A personagem Idalina é interpretado pela aluna Jacqueline
da Costa, 24 anos, cuja atuação não deixa a desejar
para uma atriz experiente. “Todos que assistem à peça
dizem que tenho vocação para atriz e eu já estou quase
acreditando”, confessa a aluna.
Incentivada pelo professor, Jacqueline está tentando
conseguir uma bolsa para estudar teatro. Já se inscreveu
em uma instituição, mas não foi contemplada. “Estou adorando
fazer esta peça e vou continuar tentando uma bolsa
para estudar teatro”, planeja a aluna, que já arrumou emprego
na Escola de Samba Império Serrano. No momento,
seu sonho é participar do projeto cultural “A Voz do Morro”,
patrocinado pela própria escola. “Jacqueline já está no
meio artístico, agora é só correr atrás das oportunidades”,
afirma o professor Fábio.
