
O prazer de ler
O escritor argentino-canadense Alberto Manguel escreve sobre os livros. É autor de “Uma História da Leitura” e, em seu trabalho mais recente, “Os
Livros e os Dias – um ano de leituras prazerosas”, seleciona doze livros fundamentais
da literatura universal, entre eles Memórias Póstumas de Brás
Cubas, de Machado de Assis. Manguel esteve em Brasília para participar da
Feira do Livro e concedeu entrevista ao Canal E, que é a emissora educativa
do Distrito Federal. Reproduzimos os trechos mais importantes da entrevista,
onde ele fala sobre a importante missão de pais e professores em
despertar nos jovens o gosto pela leitura e sobre sua paixão pelos livros.

"Não há bons
ou maus livros.
Existem aqueles
que permitem
uma leitura em
profundidade e
outros que possibilitam
apenas
uma leitura
superficial."
A TV e o computador vêm sendo apontados como vilões contra os livros. Como os pais poderiam incentivar os filhos a se envolverem também com a leitura, e não só com a TV e o computador?
É uma missão difícil, pois nem os pais nem os professores podem resolver isto sozinhos. Para devolver aos jovens o gosto pela leitura, ou seja, para que essa mudança aconteça, todos devem se empenhar.
Vivemos em uma sociedade em que o livro não é visto mais pela sua importância, mas apenas como entretenimento secundário. Então, é difícil convencer o jovem de que a leitura é importante se a própria sociedade não vê isto como uma verdade.
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No ofício de professor existem muitas dificuldades. Uma delas é a de que o professor deve ensinar o jovem a gostar de ler. O que o senhor diria a um professor para ajudá-lo a despertar esse interesse?
Creio que o professor pode fazer duas coisas: deixar à disposição do aluno uma seleção muito grande de textos e, em segundo lugar, dar o exemplo de sua própria paixão pelos livros. É impossível convencer alguém a ler, se você não é apaixonado pela leitura.
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Em uma época em que a imagem se tornou tão importante, por que a leitura continua sendo fundamental?
As imagens sempre foram importantes, pois são componentes cotidianos na vida das pessoas. Se pensarmos na Idade Média, no Renascimento, no Barroco da América Latina, veremos a importância da imagem. Hoje, dizemos que há uma competição entre imagem e palavra escrita. Mas não sei se é mesmo uma competição. Acho melhor classificar como formas compartilhadas de informação e de criação. Na criação com palavras, intervém nossa visão sobre as imagens e intervém nossa leitura narrativa, como se fossem histórias. Nós lemos imagens como se fossem histórias narrativas.
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Na sua opinião, existem livros bons e livros ruins?
Sim, acredito que existam para cada leitor. Os livros que eu considero ruins, para você podem ser os que importam. O certo é que não há bons ou maus livros, mas sim livros superficiais. Existem livros que permitem uma leitura em profundidade, cada vez mais extensa, e outros que permitem somente uma leitura superficial. Por exemplo, a diferença de ler Moacir Sclyar e Paulo Coelho.
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Quando surgiu a fotografia diziam que a pintura ia acabar. Hoje se fala que o livro eletrônico e o computador irão substituir os livros em papel. O senhor concorda com este pensamento?
Cada nova tecnologia anuncia a morte da tecnologia precedente, pois precisa tomar o vocabulário da outra. Assim, a fotografia toma o vocabulário da pintura, o cinema anuncia o fim do teatro, o vídeo anuncia o fim do cinema.
Mas, o campo da imaginação humana é muito extenso e infinito. Podem surgir várias tecnologias, mas todas são úteis e todas compartilham este terreno. Na verdade, o livro incorpora qualidades da tecnologia eletrônica e esta toma vocabulário do livro.
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Acompanhando sua história, constatamos que o senhor leu vários autores brasileiros, entre os quais Machado de Assis e Mário de Andrade. Como o senhor analisa a literatura brasileira?
Eu penso que não devemos falar de literaturas nacionais, que são frutos de decisões políticas. No Brasil, vocês tiveram a sorte de ter várias culturas muito poderosas, que se bastam a si mesmas. É certo que existe uma grande força imaginativa e criativa que forma uma literatura brasileira, ou melhor, uma literatura em língua portuguesa nesta parte do mundo. Isto teve como resultado uma literatura tão forte que tem nomes como Nélida Pinon e Clarice Lispector.
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Quais autores o influenciaram durante essas leituras?
É uma pergunta difícil de responder. É como responder quais seus melhores amigos, de um grupo de muitos amigos. Mas eu posso falar de alguns livros que foram muito importantes para mim. Surpreendo-me, por exemplo, quando lembro que Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, foi fundamental para a minha formação. Também Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e toda a obra de Borges.
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"No Brasil, vocês tiveram a sorte de ter várias culturas muito poderosas. É certo que existe uma grande força imaginativa e criativa que forma uma literatura brasileira, ou melhor, uma literatura em língua portuguesa nesta parte do mundo."